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	<title>Astrobiologia</title>
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		<title>Entrevista com Evandro Pereira da Silva, especialista de laboratório do AstroLab</title>
		<link>https://astrobio.igc.usp.br/2026/06/entrevista-com-evandro-pereira-da-silva-especialista-de-laboratorio-do-astrolab/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Danilo Albergaria]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 02 Jun 2026 22:08:17 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Entrevista]]></category>
		<category><![CDATA[AstroLab]]></category>
		<category><![CDATA[microbiologia]]></category>
		<category><![CDATA[Raman]]></category>
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					<description><![CDATA[Por Danilo Albergaria Desde o surgimento dos laboratórios como locais da prática científica na passagem do século XVIII para o]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph">Por Danilo Albergaria</p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph">Desde o surgimento dos laboratórios como locais da prática científica na passagem do século XVIII para o XIX, os trabalhadores que cuidam da aparelhagem e mantêm a estrutura toda funcionando têm sido fundamentais para o desenvolvimento das ciências naturais. Com raras exceções, eles também têm sido figuras esmaecidas nas narrativas de grandes descobertas, pouco lembrados por uma história que dá muita atenção aos cientistas de destaque e ignora que a ciência é atividade coletiva por excelência.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não raramente, os especialistas de laboratório entendem a aparelhagem, os experimentos e os próprios resultados tanto quanto – e às vezes, mais do que – os próprios pesquisadores. Desde seu ingresso no AstroLab, em julho de 2012, Evandro Pereira da Silva tem desempenhado essa função com maestria. Quem frequenta o laboratório percebe rapidamente que o especialista é peça-chave no desenvolvimento das pesquisas feitas por lá, em todos os níveis. É de sua responsabilidade, por exemplo, o treinamento dado a todos os alunos de iniciação científica, aos mestrandos, doutorandos e pós-doutorandos que passam pelo laboratório.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Evandro ajuda os pesquisadores no desenvolvimento dos experimentos, na compreensão dos equipamentos e técnicas usados no laboratório – contribuindo decisivamente no uso daquilo que é a sua especialidade, a espectroscopia Raman. Além disso, organiza e fornece <em>insights</em> nos seminários, e às vezes publica artigos acadêmicos junto com os pesquisadores. Por isso, não é exagero dizer que se trata de uma figura central na consolidação do AstroLab como centro de referência em astrobiologia no Brasil.</p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Como você descreveria a sua atuação no AstroLab?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Eu tenho duas atuações principais no laboratório. Uma delas é burocrática, envolvendo comprar material, checar estoque, resolver questões de licenças e comissões de biossegurança. A outra é atuar na parte de capacitação e suporte, incluindo organizar a limpeza, que dá um trabalho considerável. Sou responsável pelo treinamento dos pesquisadores e alunos que entram no laboratório. No passado, não tínhamos alunos fazendo treinamento, passando conhecimento adiante, e isso gerava <em>gaps</em> de conhecimento. Nem todo mundo tem facilidade de ensinar. Quando o laboratório estava começando a crescer, conseguimos identificar os <em>gaps</em> e defasagens na formação experimental dos estudantes. Então centralizamos todo o treinamento de estudantes para suprir essa carência de formação.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Você é o principal responsável por treinar os alunos?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Sou responsável pela capacitação básica deles.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>O que é essa capacitação básica?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">É uma capacitação em microbiologia, principalmente. É focada em dar noções básicas de microbiologia, de cultivo, de isolamento ambiental e o experimento real, que é o experimento de radiação com o organismo modelo e noção básica de estatística.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Que tipo de suporte você dá aos pesquisadores?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Dou suporte para a capacitação de como usar equipamentos e as técnicas, mas também contribuo com o desenho experimental e a discussão de resultado. Com alguns pesquisadores eu acabo colaborando em trabalhos acadêmicos e publicamos artigos. Mas ocupo boa parte do meu dia com ajudar as pessoas. Aí entra a gestão de recursos humanos. Nosso laboratório é bem pacífico. Já tivemos alguns casos de atrito entre pesquisadores – nenhum difícil de ser resolvido, mas às vezes isso acontece num grupo de pesquisa grande. O gerenciamento de potenciais conflitos é bastante centralizado em mim e acabo gerenciando parte do bem-estar do laboratório.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Já vi você várias vezes discutindo a pesquisa com os alunos, ativamente conversando com os pesquisadores sobre experimentos e resultados.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Sim, mas atuo mais em desenho experimental. Às vezes ajudo alguém que está tendo problema em alguma coisa, dou sugestões de como mudar e melhorar o experimento. Mas também contribuo na interpretação dos resultados.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Qual é a sua formação? Como você chegou ao AstroLab?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Na graduação, estudei química ambiental, que hoje se chama química com ênfase em meio ambiente. Comecei a trabalhar no primeiro ano de graduação, em 2007, numa escola da rede privada. Trabalhei como plantonista, cuidava do laboratório da escola e fui professor substituto. Na graduação, tinha uma disciplina chamada <em>a vida em contexto cósmico</em>, oferecida no IAG [Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP] até hoje. Eu era louco para cursá-la, mas só era oferecida durante o dia. Meu curso era noturno e eu sempre estive trabalhando.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nos últimos anos da graduação, trabalhei na White Martins por dois anos, na parte de gerenciamento industrial ambiental. Acabei não sendo efetivado porque o cenário global da empresa não era bom e estava com corte de gastos, ainda que o grupo brasileiro estivesse estourando de vendas. Foi quando notei a vaga de especialista no Laboratório de Astrobiologia, no Observatório Abrahão de Moraes, em Valinhos. Sempre gostei de astronomia e ficção científica. Prestes a me formar, desempregado, passei a estudar oito horas por dia para o concurso.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Era uma vaga só?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Uma vaga só. Estudei igual a um doido. Arrumei um emprego num laboratório de análises químicas e, durante uns dois meses, ia trabalhar de manhã e estudava no restante do dia. Acabei passando.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>O que você estudou na pós-graduação?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Fiz mestrado em astrobiologia, estudando origem da vida com a professora Dalva Faria, no Laboratório de Espectroscopia Molecular do IQ [Instituto de Química da USP]. Pesquisei a intercalação de alguns aminoácidos em argilas aniônicas, que são argilas com afinidade por ânions. Então eu trabalhava com aminoácidos aniônicos, que são menos comuns em alguns estudos de origem da vida, fazendo simulações do ambiente prebiótico para ver como essa interação poderia ter ajudado no processo de aumento de complexidade de química para a origem da vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Não quer fazer doutorado?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Não. O final do meu mestrado, em 2017, foi uma das épocas mais caóticas da minha vida. O AstroLab tinha uma demanda muito alta e muitas vezes trabalhei à noite e de final de semana fazendo meus experimentos. Às vezes eu tinha que usar outros laboratórios para fazer algumas medidas, mas eles só ficavam disponíveis de final de semana. Minha saúde psicológica foi embora. Resolvi esperar um tempo para fazer um doutorado, mas perdi o interesse. Às vezes cogito voltar e já pensei em algumas linhas de pesquisa para um doutorado. Mas é um sofrimento muito grande trabalhar em duas jornadas e essa formação adicional não influencia no crescimento de minha carreira profissional.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Você tem algum desejo de ser professor universitário?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Já cogitei dar aula em universidades particulares. Trabalhei no começo da minha formação com ensino e era algo de que eu gostava muito. Só que buscar isso hoje vai sacrificar muito a minha vida pessoal; eu teria que abrir mão de meu trabalho e minha renda atual por quase uma década para ter chance de me tornar um professor na cidade de São Paulo e é algo que não é uma ambição minha.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Percebo que você tem atuação ativa e contribuição muito significativa na pesquisa de muita gente. E você tem publicado junto com os pesquisadores.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Publico, mas menos do que gostaria – a maior parte da minha demanda de trabalho não é com minha atuação direta no desenvolvimento de pesquisa. Para que eu consiga ser mais ativo nas publicações, eu teria que começar a sacrificar partes da minha vida pessoal, tendo que atuar de noite ou final de semana para gerar dados e escrever trabalhos. Este sacrifício é algo que não desejo fazer.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Muita gente acaba ingressando na carreira científica não por ter alguma grande ambição profissional, mas porque tem uma grande identificação com determinado problema, enigma, objeto, questão, etc.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Tanto que para muitas pessoas a pesquisa não é encarada como trabalho. Tem quem se mate pesquisando 60 horas por semana, porque para a pessoa aquilo não é uma demanda. É como se fosse a própria inquietude dela, a existência dela, o que ela gosta e o que ela quer fazer. Maravilhoso para quem sente isso, tornar o trabalho sua ambição de vida. Deve ser muito vantajoso para a pessoa. Mas eu não tenho isso.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Em qual área você publica mais?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Publico mais na parte de espectroscopia Raman, em que colaboro ativamente com outros pesquisadores, principalmente com o pessoal da paleontologia. Ajudei em interpretação de dados, coleta de medidas, essas coisas. Espectroscopia Raman não é uma técnica trivial e fiz um mestrado na área, sou especializado nisso. Por isso tenho capacidade de contribuir com coisas bem difíceis relacionadas à técnica.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Poderia explicar de forma simples o que você faz em espectroscopia Raman?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">É uma técnica que consegue identificar ligações covalentes. Existem três tipos de ligação entre átomos: a ligação metálica, a iônica e a covalente. Na covalente, existe um orbital molecular de um compartilhamento de elétrons. A espectroscopia Raman usa um laser monocromático com um comprimento de onda que excita os elétrons do orbital molecular. A partir do que sabemos do laser e da luz captada no detector (espalhamento Raman), conseguimos saber a energia do orbital molecular e identificar a ligação química. Com isso podemos inferir diferentes ligações, como por exemplo, de carbono-oxigênio, carbono-hidrogênio e carbono-carbono, etc.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Com um microscópio acoplado, ampliamos em até mil vezes a visualização da amostra. Selecionamos pontos específicos dessa ampliação, disparamos o laser nesse ponto e coletamos a informação química dele. Dá até para fazer um mapeamento químico da superfície da amostra.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A interpretação e o processamento desses dados não são triviais. É algo difícil, principalmente para quem não está familiarizado com espectroscopia e que usa o Raman como ferramenta para resolver um problema específico. O pesquisador não vai se debruçar nisso, aprender a técnica e tudo mais. Nisso eu entro fazendo a coleta de dados, o tratamento dos dados, transformo os dados em gráficos, e contribuo para a interpretação de resultados.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Como essa técnica pode ajudar em pesquisas ligadas à astrobiologia?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Um exemplo é contribuir para a identificação compostos químicos, biomoléculas, bioassinaturas e material fóssil.A astrobiologia tenta entender a vida como um fenômeno cósmico. Para isso são estudadas a origem, a evolução, dispersão e o futuro da vida. Raman é importante para entender a evolução pois é usada para identificar bioassinaturas de microrganismos fósseis. Quando a gente vê o fóssil de um dinossauro, é relativamente fácil apontar “isso é um bicho”. Mas quando você trabalha com microrganismos fossilizados, é importante identificar as bioassinaturas e a Raman uma técnica muito eficiente para fazer essa identificação. Tanto que em Marte tem um espectroscópio Raman, no [jipe da NASA] Perseverance.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Quando você fala para as pessoas que você trabalha no Laboratório de Astrobiologia, elas geralmente sabem o que é astrobiologia?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Tem que explicar um pouquinho. Hoje a astrobiologia é bem mais difundida do que quando eu entrei. Alguns já ouviram falar, mas em geral perguntam o que é ou querem saber mais do que já sabem.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Quando o pessoal entende o que é a astrobiologia, o que geralmente você ouve?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Costuma ser algo muito positivo. Eu já ouvi muito o comentário de que eu tenho um trabalho legal. A própria carreira acadêmica gera um estranhamento em relação aos demais empregos. Estamos na vanguarda do conhecimento, mas a parte que ninguém vê é que na prática as coisas dão muito mais errado do que certo. A gente aprende a lidar muito bem com frustração logo que você entra na academia, porque ninguém nunca fez aquilo. Então é algo que eu gosto muito de fazer. Eu gosto muito do meu trabalho.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Me parece que se envolver com astrobiologia implica estar envolvido numa exploração cujo destino está repleto de incógnitas. Deve ser fascinante fazer parte disso, tentar colocar um tijolinho ali, dar um passo adiante.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">A frase que abre o meu mestrado é de um ditado árabe: “<em>quem planta tâmaras não colhe tâmaras</em>”. A tâmara demora 90, 100 anos para dar os primeiros frutos. Alguém precisou plantar a árvore e essa pessoa não a verá, de fato, dar as tâmaras. A academia tem muito disso, de dar pequenos passos e às vezes não ter nem noção do que esses passos vão poder se tornar. É um tijolinho que se perde no meio dos tijolinhos, mas eu acho incrível.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eu amo meu trabalho. Tomo muito cuidado para não deixar a vida profissional transbordar para a vida pessoal, mas não quer dizer que não gosto da minha vida profissional. Me realizo por trabalhar nisso e tenho dificuldade de me ver trabalhando com coisas que não têm um propósito. E eu vejo um propósito na astrobiologia.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Quando você entendeu o que era a astrobiologia?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Fui ter ideia do que era pesquisado na área quando descobri a existência do AstroLab. Foi meu primeiro contato com a astrobiologia como ciência. Mas meu foco era outro, o concurso para atuar no laboratório. Calhou que eu passei no concurso e desde julho de 2012 comecei a atuar na área.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Em Valinhos, o foco do AstroLab era parecido com o que vocês têm hoje?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Era bem parecido com o que tem hoje. O AstroLab nasceu com uma ideia de se tornar um centro de pesquisa em astrobiologia. Lá, tinha o observatório e uma área legal para o laboratório. Já tinha essa filosofia de ser totalmente aberto. Quem quer trabalhar com a astrobiologia precisa da nossa estrutura, por isso somos muito abertos. Isso está na base, na fundação do AstroLab.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No começo, fluiu muito bem. Mas começamos a ter dificuldade com a captação de alunos. Dependia do interesse dos alunos de iniciação científica em astrobiologia, e esse interesse dependia de conseguirmos divulgar ou de descobrirem sobre nós. Alunos de pós-graduação, às vezes, ficavam um tempo no laboratório. A dinâmica era um pouco difícil porque o laboratório não ficava em São Paulo. Estávamos meio isolados, nem perto da Unicamp, nem perto da USP. Pouquíssimas pessoas da Unicamp chegaram até nós. Isso gerava uma defasagem de recurso humano.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Essa foi a razão da mudança do AstroLab para São Paulo?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa é a maior razão. Era muito alto o custo pessoal para um aluno fazer graduação ou pós em uma cidade e viajar até o AstroLab para realizar experimentos – principalmente para os alunos de iniciação científica, que ganhavam 600 reais por mês. O Fábio [Rodrigues, coordenador do AstroLab] tinha sido contratado aqui na USP em metade de 2014. Surgiu, assim, a oportunidade de trazer o AstroLab para São Paulo naquele ano. Em um ou dois anos após a mudança, recebemos uma reforma para abrigarmos a estrutura e equipamentos que temos hoje.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Vocês sentiram diferença no interesse pelo laboratório?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Sim, brutal. Antes da metade de 2015 o grupo já tinha quintuplicado de tamanho. Foi surreal.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Como vê o desenvolvimento da astrobiologia desde que você entrou no AstroLab?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">No Brasil, vejo a astrobiologia em um movimento de expansão. A área foi captando alunos e boa parte deles desenvolveram carreiras acadêmicas. Alguns seguiram para outras áreas, mas muitos doutores foram formados nos últimos anos e há cada vez mais pós-doutorandos. Com essas pessoas se tornando professores, haverá cada vez mais alunos e pode haver um crescimento exponencial da área. Vamos ver como isso vai se desenvolver a longo prazo. Também vejo expansão em linhas de pesquisa, com a agricultura espacial crescendo muito, principalmente com a parceria brasileira com a NASA, com a Embrapa envolvida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No panorama global, a astrobiologia parece muito focada nas luas geladas, principalmente Encélado [lua de Saturno] e Europa [lua de Júpiter]. O pessoal está meio triste com Marte. Foram descobrindo mais sobre o planeta e vendo como é difícil existir vida lá. A atmosfera não ajuda, o solo é muito pior do que imaginávamos. Ouvi relatos de que na última AbGradCon [Astrobiology Graduate Conference] o entusiasmo com Marte diminuiu por parte dos pesquisadores e tinha muita gente falando só das luas geladas, muito sobre Encélado. Ter perdido o NAI [Instituto de Astrobiologia da NASA] não foi bom. Um dos maiores centros de astrobiologia do mundo foi dissolvido e isso impactou negativamente. Mesmo com isto ocorrendo, não senti uma retração do campo.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Aqui no Brasil, poderia haver uma forma de integrar um pouco mais a astronomia. Astrofísicos vêm explorando condições de habitabilidade com modelos físicos, explorando como microrganismos extremófilos podem existir em determinadas condições plausíveis em exoplanetas.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Sim, e é justamente o que o [astrônomo da Universidade Federal do Rio de Janeiro] Luan Ghezzi faz. Ele fez simulações do <em>Proxima Centauri b</em>, exoplaneta que está na zona habitável ao redor da estrela <em>Proxima Centauri </em>[a estrela mais próxima do sistema solar]. Ele trabalhou com fluxo solar, explorando o quanto as explosões solares poderiam lançar de energia da estrela na superfície do planeta. Ele se baseou em outros trabalhos, fazendo simulações da composição atmosférica da superfície do planeta. Tudo isso foi colocado em conjunto na AstroCam do AstroLab para simular umas leveduras bem resistentes.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>O que a AstroCam pode fazer?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">É uma câmara que simula ambientes espaciais. Por exemplo, ela simula a composição atmosférica; colocamos gases lá dentro através de cilindros com a composição que quisermos. A câmara também simula a pressão, radiação UV e temperatura. Ela pode trabalhar com pressão abaixo da terrestre, nominalmente, indo até 10<sup>-9</sup> milibar usando vedação de cobre. Na prática, a gente usa umas vedações de borracha para ter mais fácil acesso, então um pouco menos, provavelmente 10<sup>-7</sup> milibar no uso mais prático. Também temos um criostato para simulação de temperatura, que vai de +400 Celsius a -263 Celsius (10 Kelvin) e simuladores solares para irradiação ultravioleta.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A gente consegue medir Raman <em>in situ</em> – é a única câmara do mundo que mede Raman <em>in situ</em>. Também podemos fazer medidas de UV-Vis [espectroscopia Ultravioleta-Visível] por reflectância, em tempo real, utilizando um passador de fibra ótica e os simuladores solares.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Dá para fazer experimentos de microbiologia nessas condições? Daria para explorar como um determinado composto químico pode ser gerado abioticamente, por exemplo?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Tem como simular, por exemplo, a inclusão das misturas gasosas que a gente tem da atmosfera abiótica da Terra. A câmara não é boa para trabalhar com astroquímica, pois o menor vácuo da AstroCam ainda é um vácuo muito alto para experimentos de astroquímica. Mas para trabalhar com simulações planetárias, mesmo em baixíssima pressão, ela funciona super bem.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Na Europa e no Japão, tive a sensação de que as pessoas procuram agora dizer que são astrobiólogas ou estão relacionadas à astrobiologia. Uma década e meia atrás as pessoas tinham certo receio de se dizer astrobiólogas e preferiam se dizer astroquímicas, astrofísicas etc. E aqui no Brasil, como você vê isso?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Um problema de você se colocar diretamente como astrobiólogo está relacionado ao mercado de trabalho. Se você se promover somente como astrobiólogo e ainda não estiver instalado na universidade como professor, é algo que pode fechar portas sem necessidade. Já foi muito discutida a criação de um programa de pós-graduação em astrobiologia. Me preocupa formar recurso humano que poderá não ser absorvido pois não há programa dedicado à astrobiologia, mas o egresso pode conseguir ser absorvido em programas de bioquímica, de biotecnologia, de microbiologia, e continuar trabalhando com astrobiologia. Tenho a sensação de que mais gente fala que é astrobiólogo pois acabou se tornando algo mais difundido. Anos atrás, quando a gente divulgava o Laboratório de Astrobiologia, ninguém fazia ideia do que era. Toda vez que a gente recebe visitas&#8230;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Que tipo de visita?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Por exemplo, de alunos de ensino médio. Recebemos escolas e entusiastas da área nos dias de portas abertas, além dos alunos ingressantes no curso. Percebo que antigamente quase ninguém sabia o que era astrobiologia. Nos últimos anos, pelo menos uns 10 a 20% dos visitantes já sabem o que é e já se arriscam a falar o que é. Isso é bem legal. A gente trabalha num ramo da ciência que é absolutamente encantador. Ao falar sobre astrobiologia, é quase impossível não encontrar alguém que não se encante pelo menos um pouco.</p>



<p class="wp-block-paragraph">__________</p>



<p class="wp-block-paragraph">O conteúdo do site é realizado com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), Brasil. Projeto: “Pontes interdisciplinares para a compreensão da vida no Universo: o Núcleo de Apoio à Pesquisa e Inovação em Astrobiologia e o Laboratório de Astrobiologia da USP”. Processo nº 2025/06229-7.</p>
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		<item>
		<title>Entrevista com Fabio Rodrigues, coordenador do NAPI/Astrobio e do AstroLab</title>
		<link>https://astrobio.igc.usp.br/2026/05/entrevista-com-fabio-rodrigues-diretor-do-astrolab/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Danilo Albergaria]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 13 May 2026 19:25:42 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Entrevista]]></category>
		<category><![CDATA[agricultura espacial]]></category>
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		<category><![CDATA[bioassinaturas]]></category>
		<category><![CDATA[microbiologia]]></category>
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					<description><![CDATA[Por Danilo Albergaria Na primeira década deste século, muitos cientistas brasileiros interessados em astrobiologia ainda não sabiam como fazer pesquisa]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><br>Por Danilo Albergaria</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na primeira década deste século, muitos cientistas brasileiros interessados em astrobiologia ainda não sabiam como fazer pesquisa na área sem ter o mesmo acesso a missões espaciais que municiavam trabalhos de norte-americanos e europeus. Abrindo a picada das pesquisas em astrobiologia no Brasil estavam três jovens pesquisadores: Douglas Galante, Ivan Paulino-Lima e Fabio Rodrigues. Dos trabalhos interdisciplinares do início de carreira desses pioneiros surgiu a necessidade de desenvolver um laboratório que permitisse explorar assuntos no coração da astrobiologia, como a compreensão das condições extremas existentes em outros planetas e as possíveis respostas químicas da vida a esses ambientes. O resultado foi a criação, em 2011, do Laboratório de Astrobiologia, o AstroLab, na Universidade de São Paulo.</p>



<div class="wp-block-media-text is-stacked-on-mobile"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" width="190" height="245" src="https://astrobio.igc.usp.br/wp-content/uploads/2026/05/WhatsApp-Image-2026-05-13-at-13.30.02.jpeg" alt="" class="wp-image-127 size-full"/></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p class="wp-block-paragraph">Hoje, Rodrigues é o coordenador do AstroLab, que fica no Instituto de Química da USP desde 2015. A sala do coordenador está ao fundo de um corredor que abriga uma bancada repleta de computadores e serve aos jovens pesquisadores que passam diariamente pelo laboratório. Com frequência, Rodrigues sai de sua sala para participar das discussões que surgem espontaneamente entre os alunos, numa animada atmosfera de ensino informal e aprendizado mútuo. Desse ambiente efervescente, ele concedeu uma entrevista que passeia pela história do AstroLab, explica a quais áreas e pesquisas o laboratório atende, e reflete sobre o desenvolvimento recente da astrobiologia no Brasil.</p>
</div></div>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Você é um dos fundadores do AstroLab e, por isso, um pioneiro da institucionalização da astrobiologia no Brasil. Como você começou a se envolver com a área?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Sou formado em ciências moleculares e depois fui para a química. Desde a iniciação científica uso espectroscopia molecular, técnica que estuda a interação da radiação com a matéria, aplicada a problemas físico-químicos. Mas também sempre me interessei pela área ambiental, por oceanografia e geologia. No final do meu doutorado, o Douglas Galante e o Ivan Paulino Lima estavam construindo uma câmara de simulação de ambientes espaciais. O Douglas focava em astronomia e cálculo teórico, e o Ivan, em biologia e experimentos. Com minha formação em espectroscopia Raman, comecei a contribuir nas discussões sobre métodos de medição aplicáveis ao equipamento. Logo identifiquei na astrobiologia uma oportunidade de aplicar a química em diversas áreas ambientais. O nome remete à astronomia e biologia, mas a área é mais do que isso. Ao buscar uma linha de pesquisa própria, encontrei as bioassinaturas, ou seja, a busca por sinais de vida. Percebi que a área abria uma fronteira muito interessante para o uso de espectroscopia e para a minha formação de químico. Os projetos do Douglas e do Ivan focavam em simulação ambiental e resistência dos microrganismos, mas não investigavam quais moléculas poderiam ser usadas para detectar vida. Por isso propus meu projeto de pós-doutorado em bioassinaturas no final de 2010.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Como foi essa mudança de foco para as bioassinaturas?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Na época, no Instituto de Química ninguém trabalhava com isso, mas havia um grupo com muito conhecimento em caracterização química de metabólitos, para entender vias metabólicas. Busquei caracterizar essas moléculas e isso continua uma das várias linhas de pesquisas do laboratório. O AstroLab também foca em questões sobre a interação vida-ambiente, estudando como organismos vivos interagem e respondem metabolicamente em diferentes condições ambientais e como podemos usar isso para identificar sinais característicos de vida, ou seja, bioassinaturas.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Hoje, a busca por bioassinaturas em exoplanetas têm recebido bastante atenção na astrobiologia. Poderia dar um panorama do estudo de bioassinaturas? O que mudou desde que você começou a pesquisar sobre isso?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Há três tipos de bioassinaturas. Primeiro, as químicas ou moleculares, fruto do metabolismo direto ou indireto de um organismo. Por exemplo, na Terra, o oxigênio foi sendo liberado por organismos vivos, mudando a atmosfera. A segunda é morfológica: por exemplo, um fóssil que perdeu essas moléculas, mas teve a forma preservada. No registro fóssil, vemos que a morfologia de uma precipitação de carbonato biológica difere da abiótica. A terceira é baseada em fracionamento isotópico: não vemos a molécula, mas organismos vivos alteram os isótopos de um elemento químico de forma diferente dos processos abióticos, que não envolvem vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Cada tipo de bioassinatura tem vantagens e desvantagens quando se trata de detecção. Quando um organismo precipita um composto inorgânico, um mineral, é mais difícil de caracterizar como bioassinatura, mas se preserva melhor do que a matéria orgânica, que se degrada no registro fóssil. Dá para pensar em moléculas maiores, grandes compostos orgânicos, fragmentos de DNA, de membranas – biomoléculas que, se encontradas, podem ser bioassinaturas. Essas biomoléculas são mais difíceis de detectar do que um gás atmosférico porque exigem estudo <em>in situ</em>: tem que mandar uma sonda para o planeta. A atmosfera de um planeta ou exoplaneta pode ser estudada de longe. Por outro lado, não conseguimos mandar uma sonda para fora do sistema solar. A única forma de estudar exoplanetas é remotamente. E simplesmente detectar oxigênio ou metano num exoplaneta não significa necessariamente sinal de vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Há vinte anos, ainda era distante falar em buscar bioassinaturas em exoplanetas. A NASA não falava muito em bioassinaturas, mas em estudo do ambiente e, só eventualmente, em sinais de vida. Hoje a busca por matéria orgânica e por sinais de vida já está mais consolidada e se acelerou bastante por conta do progresso tecnológico. É uma área em que a pesquisa está muito atrelada à tecnologia disponível.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>As bioassinaturas também servem para estudar a origem da vida. Por exemplo, são conhecidas bioassinaturas muito antigas, de 3,5 bilhões de anos atrás. Como você vê os avanços nessa outra frente?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Acho importante pontuar o que diferencia aquela antiga exobiologia dos anos 1950 da atual astrobiologia. O único modelo de vida que conhecemos é o da Terra. Sempre pensamos bioassinaturas à luz dos processos daqui. Ou seja, estamos entendendo a vida do nosso planeta e extrapolando. Quando procuro vida em outro planeta – em Marte, por exemplo – posso partir do pressuposto de que existem organismos vivos lá até hoje, mas também posso supor que o planeta já foi mais ameno e talvez tenha sido habitado, e podemos procurar por registros fósseis disso. Não consigo estudar Marte sem olhar para a Terra, sem olhar para a história da vida aqui. São dois processos que caminham juntos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A paleontologia, que se pergunta sobre os primeiros organismos na Terra, anda junto com a astrobiologia. A área de bioassinaturas serve tanto para estudar a vida no nosso planeta quanto para entender qual é a origem e quais são os registros fósseis mais antigos. Em paralelo, o estudo da Terra ilumina o estudo de Marte. Quando falamos de estudo de vida fora da Terra, muita gente pensa: &#8220;a gente não sabe cuidar nem da vida do nosso planeta e fica pensando sobre a vida lá fora&#8221;. Na verdade, é exatamente o contrário. Estamos entendendo a vida no nosso planeta e extrapolando esse conhecimento para outros. Acima de tudo, a astrobiologia guia essa compreensão dos processos do nosso planeta, da evolução da vida aqui, e ajuda a entender outros planetas.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>O AstroLab serve à comunidade de pesquisadores de diferentes áreas. Poderia dar um panorama das pesquisas não relacionadas à astrobiologia e que, mesmo assim, contam com o AstroLab?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Ainda em 2010, quando pensamos na criação de um laboratório de astrobiologia, a ideia era formalizar a astrobiologia como área e viabilizar, dentro da universidade, um espaço para diferentes tipos de pesquisa. A astrobiologia era muito incipiente no Brasil. Propusemos, então, um laboratório aberto, inter-multidisciplinar, que tivesse equipamentos, como câmara de simulação e espectrômetro, disponíveis para os pesquisadores. Começamos a interagir bastante com os paleontólogos, por exemplo, que estudam as bioassinaturas e usam técnicas espectroscópicas para entender processos de fossilização e a estrutura de fósseis. Alguns pesquisadores usam o laboratório para entender como a radiação pode interagir com as células de câncer, entre outras coisas. Outros pesquisadores usam nossos equipamentos para simular, por exemplo, o processo de desgaste de obras de arte e envelhecimento de patrimônio cultural. Acabamos nos especializando em simulação ambiental.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Quais áreas usam o AstroLab?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Temos três grandes blocos. O primeiro bloco é a microbiologia ambiental, principalmente a de ambientes extremos. Trazemos amostras de microrganismos de ambientes extremos para o laboratório e as cultivamos para entender que tipo de organismo tem ali e o que conseguimos fazer com eles dentro da astrobiologia. O segundo bloco é a simulação ambiental. Simulamos radiação, temperatura, pressão, composição gasosa, composição de solo, para entender a resposta dos microrganismos. Podemos simular Marte, a Terra primitiva, o ambiente espacial e luas geladas – como Europa, lua de Júpiter, por exemplo. O terceiro bloco é a química de estudo da resposta metabólica. Podemos ver se e como microrganismos sobrevivem em diferentes condições simuladas, como eles mudam o metabolismo e adaptam estratégias de sobrevivência.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>É um conhecimento que também pode servir para a exploração espacial?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Se quisermos pensar em fazer colônia na Lua ou plantio em Marte vamos ter que pegar organismos aqui da Terra, seja planta, fungo, bactéria, levedura, não importa, e levar para lá. Já em 2016 percebemos que essa era uma área crescendo muito, que ia explodir em algum momento, e que anda junto com a astrobiologia, com métodos próximos do que fazemos aqui no laboratório. Projetos de colônia na Lua ou em Marte podem levar a repensarmos os processos biotecnológicos aqui na Terra à luz da exploração espacial. Uma série de coisas precisam ser desenvolvidas: produção de bioinsumos, suporte direto à vida, produção de oxigênio, consumo de CO<sub>2</sub>, produção de solo, cultivo de alimentos. É uma área com um caminho aberto para o futuro. Em 2017 já falávamos disso, e agora em 2026 vemos seu desenvolvimento como uma realidade concreta.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>A agricultura espacial teve o primeiro simpósio internacional aqui no Brasil, organizado pela Embrapa em São José dos Campos, no interior de São Paulo, em outubro de 2025. Hoje o AstroLab contribui a esse campo?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">A agricultura espacial é um nome amplo para várias coisas. Por exemplo, gênese de solos, formação de solos. Como podemos transformar esse regolito da lua com aquele conjunto de minerais em um solo igual ao que conhecemos? Pensamos em como poder fixar o nitrogênio ali porque não podemos levar os nutrientes daqui para a Lua. Pensamos em como produzir insumos, como fixar esse gás, como que a gente pode fazer para fixar o CO<sub>2</sub> e para produzir O<sub>2</sub>. Tentamos também entender como reciclar a matéria orgânica em ambiente espacial. Tem uma série de bioprocessos envolvidos nisso que conseguimos fazer.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Já tínhamos esses projetos ligados à exploração espacial. Depois a Embrapa se interessou, a partir de 2022, e agregou muitos pesquisadores em agricultura espacial. É um tema muito promissor e, acima de tudo, é muito importante que o Brasil esteja envolvido. O Brasil perdeu o <em>timing</em> da exploração espacial depois do acidente de Alcântara, mas é hora de termos protagonismo na exploração espacial, que daqui para a frente tende a acelerar as pesquisas cada vez mais.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Qual é a sua perspectiva sobre o desenvolvimento do interesse na astrobiologia pela comunidade científica brasileira? Está havendo uma expansão de grupos de pesquisa e laboratórios em outras instituições, fora do eixo Rio-São Paulo.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Uma geração anterior à nossa era de pesquisadores que não trabalhavam com a astrobiologia, embora gostassem da área e tinham interesse pelo tema. Já estavam com a carreira estabelecida, com projetos rodando em outras áreas. Estamos agora num momento em que se formaram as primeiras gerações de pesquisadores que trabalham com a astrobiologia, que a tem como linha de pesquisa principal. Se no final dos anos 1990 talvez fosse difícil pensar que no Brasil haveria isso, hoje temos muitos projetos se desenvolvendo na área.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Quando vocês estavam começando, havia alguma resistência dentro da comunidade científica com relação à astrobiologia? Havia muita dificuldade em fazer pesquisa na área?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando comecei, o que sentia era desconhecimento por parte da comunidade. Por exemplo, ao organizarmos um simpósio, convidávamos alguém cuja linha de pesquisa era interessante para a astrobiologia, mas a pessoa respondia que não trabalhava com a área. Ao fazermos o convite, frequentemente tínhamos que explicar o que era a pesquisa em astrobiologia. Aos poucos, pesquisadores interessados, mas que não trabalhavam explicitamente com a área, começaram a ver que podiam fazer parte dela. Quem trabalha com origem da vida ou exoplanetas, por exemplo, está dentro do contexto da astrobiologia. Com o tempo, muita gente começou a se animar em participar de eventos da área.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O desconhecimento sobre a astrobiologia estava, também, nas agências de fomento. Percebemos que a área era bem recebida pela opinião pública e atraía muitos estudantes, a partir de uma divulgação científica muito forte feita por instituições como a NASA. Muita gente agora também procura essa linha de pesquisa pelo potencial de impacto dela. Quando dou palestra para outras áreas ou falo com um público que não é acadêmico, percebo que a astrobiologia toca num tema em que todo mundo tem a sua opinião e do qual todo mundo já ouviu falar. Costumo brincar que saí de um doutorado em espectroscopia Raman de líquidos iônicos alquil imidazólicos, de que ninguém tem a menor ideia do que seja, para uma em que procuro sinais de vida fora da Terra, e todo mundo tem uma opinião sobre isso.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É um tema interdisciplinar muito interessante para ensino, para divulgação, para extensão universitária, e tem sido cada vez mais demonstrado que dá para fazer pesquisas de bastante impacto na área. Acho que tem crescido a percepção de que dá para trabalhar com a astrobiologia sem necessariamente trabalhar com tudo de astrobiologia. Eu trabalho com uma parte dela. Eu interajo com a comunidade, mas eu tenho uma linha de pesquisa que é focada em coisas específicas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando o AstroLab era único laboratório de astrobiologia do Brasil, recebíamos um monte de e-mails dizendo algo como “eu gosto muito de astrobiologia, mas não tenho ninguém aqui na minha universidade com quem posso trabalhar”. Respondíamos para a pessoa procurar alguém que trabalhe com alguma área genética, bioquímica, microbiologia, astronomia, astrofísica, e pensar num projeto que possa ser relevante para a astrobiologia, sem necessariamente dizer que a linha de pesquisa era a astrobiologia. Além disso, fomos fazendo eventos e trazendo para a área pessoas interessadas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sobre a dificuldade de fazer estudo, muita gente achava que para fazer estudo de astrobiologia você exclusivamente tinha que ter acesso a amostras fora da Terra. Quando mostramos que não é preciso acesso a amostras de Marte para fazer astrobiologia, por exemplo, e a fazer muita coisa em laboratório, muita gente se animou em pesquisar também.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>A astrobiologia é um guarda-chuvas de disciplinas e a interdisciplinaridade é uma de suas marcas. Em relação à carreira de jovens pesquisadores, como é que você vê essa questão da interdisciplinaridade? Tem sido até uma vantagem para os iniciantes? Eles têm visto isso como um ponto positivo?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Falo para os meus alunos que não existe pesquisa em astrobiologia. Existe pesquisa em espectroscopia molecular, em exoplanetas, em microbiologia de uma determinada região. Ou seja, o projeto é uma coisa muito específica, mas dialoga com o topo. Se você for pesquisador, seu projeto vai entrar numa área muito específica e se focar muito nisso. Por outro lado, você vai dialogar com uma área mais ampla. É muito importante entender que, como pesquisador, é preciso se especializar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando eu prestei o concurso aqui no Instituto de Química da USP, por um lado, a minha linha de pesquisa ser diferente e nova foi positivo para a maior parte dos membros da banca. Por outro lado, um membro da banca ficou indignado com o nome astrobiologia, porque não era astroquímica e, afinal, era um concurso para o Instituto de Química. Eu respondi que não importa o nome, vou fazer a mesma coisa. É só o nome.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Minha pesquisa está dentro da astrobiologia, mas trabalho com interação entre diferentes substratos, com diferentes condições ambientais e respostas químicas. Minha linha de pesquisa não é astrobiologia, ponto. Mas é importante entender: ao mesmo tempo em que você tem uma especialização muito grande na sua área, você tem que saber dialogar com uma comunidade grande. É continuar sendo especialista se esforçando para dialogar com mais gente.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Além do grande potencial de atração do público para a ciência, a astrobiologia pode ter um papel importante na educação. Ela pode ajudar a articular resultados que aparentemente interessam só a meia dúzia de cientistas com um cenário muito mais amplo, respondendo a perguntas muito profundas. Poderia comentar isso?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Em termos de educação, desde cedo a NASA percebeu que astrobiologia é uma excelente oportunidade de trazer pessoas para a ciência, formar novas gerações de cientistas. Não necessariamente precisamos formar cientistas, mas podemos mostrar como o conhecimento científico é interessante, por que ele importa e como funciona. Mostrar que não estamos olhando para o espaço e sem nos preocupar com a vida aqui na Terra; mostrar que, na verdade, estamos estudando e conhecendo mais sobre o nosso planeta. Esse tipo de educação científica pode ser feito em nível de ensino básico, de ensino superior ou de divulgação científica.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando fizemos o livro <a href="https://www.iag.usp.br/sites/default/files/2023-01/2016_galante_horvath_astrobiologia.pdf"><em>Astrobiologia: uma ciência emergente</em></a>, a ideia era produzir material em português sobre a área num momento em que não existia. Cansamos de receber e-mail dizendo “sou professor de ensino médio e quero trabalhar sobre astrobiologia com os alunos, mas não tem nada em português, o que eu faço?”. Quisemos contribuir para suprir essa necessidade. Acho importante e relevante, também, para mostrar que o estudo da vida no universo não é uma ciência inútil. É uma ciência que está produzindo conhecimento para agora e para o futuro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">__________</p>



<p class="wp-block-paragraph">O conteúdo do site é realizado com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), Brasil. Projeto: “Pontes interdisciplinares para a compreensão da vida no Universo: o Núcleo de Apoio à Pesquisa e Inovação em Astrobiologia e o Laboratório de Astrobiologia da USP”. Processo nº 2025/06229-7.</p>
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